IA Generativa na Música

Como competir com 75 mil músicas geradas por IA?

Como competir com 75 mil músicas geradas por IA? Essa é a pergunta do artista real diante do grande volume de faixas de Inteligência Artificial enviadas para a Deezer globalmente.

Os dados em questão correspondem a 44% dos uploads diários de música de IA generativa na Deezer até abril de 2026.

Em janeiro de 2025, 10% das faixas na plataforma eram 100% IA. Em abril o número chegou a 18%, e atingiu 34% em setembro de 2025.

Já em janeiro de 2026, o percentual era de 39% de uploads diários. É o que revela Pedro Kurtz, diretor de conteúdo e operações da Deezer nas Américas, no evento do Rio 2C, em maio de 2026: 

Reprodução:Blog Letra e Música

E agora com 7 milhões de músicas geradas todos os dias pela Suno, a questão em si é como o uso da IA vai mudar a indústria musical.

A música deixou de ser a expressão da alma para se tornar um produto em escala massiva? 

É nesse contexto o segundo capítulo da nossa série “IA Generativa na Música”. E conta com as participações de;

  • Roberto Frejat : cantor, compositor e guitarrista;
  • Pedro Kurtz: diretor de conteúdo e operações da Deezer nas Américas;
  • Carlos Mills: fundador da gravadora Mills Records;
  • Murilo Peres, Rodrigo Fercost e Alvin Gu : artistas independentes do pop rock nacional.

Então, segue com a gente nesta reflexão sobre as mudanças no mercado musical com o surgimento da Inteligência Artificial.

IA – música como produto

Setenta e cinco mil músicas 100% IA são enviadas para Deezer, segundo os dados da plataforma de streaming divulgados em abril de 2026. O que isso quer dizer no mercado musical?

 Bom, a imagem de produção em massa, onde o que prevalece é a grande quantidade de produtos em um curto espaço de tempo, se aplica ao volume de músicas geradas totalmente por IA. 

E vamos dizer que essa situação é contraditória quando se refere ao processo de composição da música. 

Sim, porque o ato de compor envolve a vivência do compositor, o sentir da vida. É algo tão subjetivo que envolve o lado emocional do artista e não requer pressa.

Porém , com o grande volume de canções 100% IA no streaming, que representa 44% do total de uploads diários, vem a pergunta: Será que a Inteligência Artificial está transformando música em produto?  É o que constata Rodrigo Fercost, cantor e compositor mineiro de pop rock, com 18,9 mil seguidores no Instagram:

Foto:Divulgação
“ A IA está transformando a música em um produto industrial, criado em massa e pensado para algoritmos.
Quando uma gravadora lança 1500 a 2000 fonogramas em um único mês, o equivalente a 150 a 200 álbuns, isso não é mais “música” no sentido tradicional, é produção industrial de conteúdo sonoro.

Já Alvin Gu, vocalista e compositor da banda Los 4 Caras, afirma que o mercado sempre enxergou a música como um produto:

Foto: Divulgação
“Na verdade, só mudou a ferramenta. Quando falamos em mercado, sempre houve a intenção de transformar a música em um produto.
A diferença, agora, é a velocidade e a produção em massa. Depois que um artista já estava consolidado é que ele conseguia fazer algumas imposições.
Porém, com a internet, está mais fácil se desvencilhar de algumas regras do mercado e fazer música com independência. Mas, para isso, tem que haver apoio aos/dos músicos que lutam pela arte humanizada.”

Durante o evento do Rio 2C, em maio de 2026, a cantora e compositora Céu contou estar preocupada com o grande volume de música em massa.

Ela falou mais sobre essa preocupação no painel “Céu ou inferno: Música e IA”:

Foto:@rio2c
“É bastante preocupante, satura e a gente vai ficando exausta. A gente tá caminhando para essa saturação coletiva.
O que tá acontecendo com a matéria-prima criativa? A arte vem do lugar do sentir. E pra mim, como criador, é preocupante.”

E Murilo Peres, fundador da Flores de Plástico, banda independente de pop rock indie, vai mais além – a arte deixa de ter alma:

Foto:@murillo_peres
“Para mim, essa produção em massa feita por IA transforma a música em um produto descartável, sem alma, criado apenas para ocupar espaço e gerar números.
Quando uma gravadora lança milhares de fonogramas em um mês, fica evidente que não há processo criativo real ali — só uma fábrica automatizada.
E isso, na minha visão, empurra ainda mais os artistas humanos para a margem e esvazia o sentido da arte.”

 

Acordos e novos modelos

Crédito:Divulgação

Diante dos dados do relatório “The State of Music Streaming in 2026”, do Music Ally, a indústria musical necessita definir regras e acordos para não ser engolida pela IA e sua produção em massa.

É esse também o pensamento de Carlos Mills, fundador da gravadora Mills Records:

Foto:Divulgação
“ Esse modelo de Inteligência Artificial Generativa fazendo música a rodo eu acho que vai cair, e já está caindo.
Porque se você pegar, por exemplo, o acordo que acabou de ser feito entre a Warner e a Suno pra usar legalmente as faixas da Warner Music, você vê que ele proíbe download.
Ou seja, sem download, o cara não vai conseguir fazer upload em plataforma digital que hoje é o principal modelo , como você sabe, do faturamento da indústria fonográfica. E isso tava se tornando realmente uma corrida maluca. 

A Deezer deu uma informação em cima de uma pesquisa que eles fizeram a pouco tempo que estão subindo cerca de 75 mil músicas de inteligência artificial generativa por dia. Então, isso é um absurdo, muita coisa.
E é claro que compete, dilui né, e é meio que como essas gravadoras que fazem isso, produtores tivessem meio que jogando na loteria.
Quanto mais apostas eles fizerem, mais chances eles têm de ganhar. Uma coisa totalmente fora de qualquer parâmetro normal e razoável.
Eu acredito sim que esse modelo não vai prosperar. Não vai ser nem por regulação externa. A própria indústria está se organizando pra barrar esse tipo de iniciativa que é fora do propósito.”

E o mercado musical já apresenta soluções para conter essa produção em massa.

A Warner Music fechou um acordo com a Suno, com modelos licenciados e controle total dos artistas sobre seus nomes e criações.

Essa parceria funciona assim: usuários do plano gratuito da Suno não terão acesso ao download das suas criações, somente ouvi-las e compartilhá-las.

Já no plano pago, o acesso ao download dos áudios é liberado, porém , com limites mensais de download para assinantes, além de opção de pagamento por pacotes adicionais.

A major Universal Music Group (UMG) fez um acordo histórico com a Udio, uma das principais plataformas de IA musical do mercado. 

Além de encerrar a disputa judicial referente ao processo de violação de direitos autorais movido contra a Udio, o acordo inclui:

  • compensação financeira para a UMG;
  • licenciamento formal tanto de fonogramas quanto de obras musicais para uso pela IA;
  • fluxo de receita direto para artistas, compositores e titulares da UMG envolvidos;
  • ecossistema fechado e controlado: obras criadas não podem ser exportadas para fora da plataforma, garantindo rastreabilidade e segurança jurídica.

O que se vê é a elaboração de um modelo de negócio opt-in para artistas, e vantajoso para a indústria musical, no sentido comercial. Porém, nada é definitivo. 

Competição por atenção

 

Em meio ao modelo de negócios desenhados pelas majors e plataformas de IA, e à elaboração de regras quanto ao uso e treinamento de Inteligência Artificial na música, estão os artistas humanos. 

E num ambiente em que já era bem competitivo entre os artistas reais por atenção no mercado musical, agora, com o surgimento dos artistas virtuais, essa competição se tornou mais acirrada.

Será esta competição justa para os músicos de carne e osso? Não é o que pensa Murilo Peres:

“Quando um artista virtual disputa a mesma atenção que um artista humano, estamos falando de dois universos completamente diferentes tentando dividir o mesmo espaço. Eu, sinceramente, acho injusto.
Um artista de verdade carrega história, esforço, vulnerabilidade, limitações… tudo aquilo que torna a música humana tão especial.

Já um artista virtual pode ser moldado para agradar qualquer tendência, produzir sem parar e surgir do nada com enormes campanhas por trás.
Então, sim, vejo essa disputa acontecendo e, para mim, ela é desleal. Não porque os artistas humanos são “melhores” por definição, mas porque eles vivem algo que a IA não vive: o caminho. A trajetória. A emoção real.
E quando a atenção do público começa a migrar para algo que não sente, não erra e não respira, eu sinto que estamos diminuindo o valor da própria arte que consumimos.”

Já para o cantor Rodrigo Fercost, tudo depende do tipo de plataforma em que a competição está inserida:

“Existe, sim — e já está acontecendo — uma competição por atenção entre artistas humanos e artistas virtuais.
Mas essa competição não é total e nem necessariamente injusta. Ela acontece em alguns níveis específicos. Plataformas como Spotify, TikTok e YouTube têm um espaço limitado de atenção. 

Se um artista virtual lança 3 músicas por semana, posta conteúdo diário, tem visual chamativo, “performa” sem pausa, ele ocupa lugar nos algoritmos — lugar que poderia ir para um artista humano.
Então sim, existe competição direta pelo feed e pelas playlists, existe competição por atenção, porque a economia de conteúdo funciona assim.”

Alvin Gu, da banda Los 4 Caras, levanta a questão sobre o apoio do público e a união dos músicos para permanecerem no mercado:

“O mercado tende a abraçar a IA pela questão financeira. O mercado é isso. O investimento no e do artista humano não está se pagando. A única fonte é show.

Vejo como única saída a geração que viu os dois lados tentar levar a música humana adiante. 
Em tempos de internet, os fãs definem a popularidade de uma canção ou de um artista.
Se as pessoas consumirem, creio que a vida se torna mais longeva. Para isso, é necessário defender os estilos, as músicas e os artistas. 
Foto:Divulgação
Apesar de Los 4 Caras ser eclético, a nossa primeira canção divulgada foi um rock.
Temos um apoio gigantesco da turma do piseiro, arrocha, forró e sertanejo. Principalmente de artistas que estão buscando divulgar as suas obras, artistas ainda pouco conhecidos.
São pessoas que, acima de tudo, defendem a composição, o suor do trabalho, a intimidade da criação. 
A competição sempre irá existir. O que vai definir é a união das pessoas que pensam diferente a favor de uma mesma causa.”

 

IA – Royalties e fraude 

Embora haja um grande volume de músicas geradas 100% por IA, a taxa de royalties oriundos desse tipo de música é muito baixa.

 Durante o evento da Trends Brasil Conference, em dezembro de 2025, Pedro Kurtz, diretor de conteúdo e operações Deezer- Américas, explicou que 70% do streaming de IA generativa é fraudulento e derrubado na Deezer.

E isso representa 0,5% dos royalties de canções 100% IA, o que, para Kurtz, não chega a ser uma ameaça.

Crédito:divulgação

O relatório“The State of Music Streaming in 2026”, do Music Ally, confirma a fraude relacionada ao consumo de músicas de IA: 85% dos streams detectados pela Deezer neste ano são considerados fraudulentos.

Isso mostra um esquema de bots simulando ouvintes humanos nas plataformas, o que gera receita indevida.

Crédito:Divulgação

A pesquisa feita pela Universal Music Group aponta a realidade como ela é (sem bots): 0,5% é o que representa a música feita por IA na porcentagem média de todos os streams em DSPs (plataformas digitais).

Isso sem falar da posição dos artistas de IA no ranking dos 7 mil mais ouvidos globalmente em 2025.

 

Crédito:Divulgação

Zero é o número de projetos gerados por IA no Top 7000, segundo análise da UMG, com base nos dados da Luminate e Billboard.

Consumo de IA na música

Os dados já mencionados reforçam a visão de Roberto Frejat, um dos maiores artistas do rock nacional, sobre a qualidade da música feita por IA:

Reprodução:Blog Letra e Música

“Sai um negócio mediano. E aí, o cara fala – “Fiz uma música.” 
Agora, vai ser mais uma pra encher a plataforma de streaming, e o cara ter que perder tempo com processamento e servidor.
(…)Muitas pessoas já se sentem atendidas pela música feita por Inteligência Artificial, o que, pra mim, é chocante. Porque eu considero que a produção da Inteligência Artificial, até este momento, é mediana.” 

Pode-se dizer que algumas pessoas escutam canções 100% IA, como relatou Frejat.

Porém, a forma de consumo desse tipo de música foge do tradicional. E não se dá por meio de plataformas exclusivamente de streaming de música, o que seria o usual. 

Crédito:Divulgação

Segundo o relatório do Music Ally, 60% dos jovens americanos, na faixa etária entre 18 e 29 anos, consomem música 100% IA generativa, com média de três horas por semana, principalmente em plataformas do YouTube e Tik Tok.

Crédito:Divulgação

Já  33% dos Millennials assumem ouvir música gerada por IA, segundo a Luminate. Essa porcentagem cai para 21% entre Boomers e Geração X, e 22% na Geração Z.

Em comparação com esse relatório, a pesquisa anual de consumo de áudio do Morgan Stanley, divulgada em janeiro de 2026, apresenta dados parecidos: 

  • 60% dos jovens entre 18 e 29 anos também escutam músicas geradas por inteligência artificial, com média de três horas semanais;
  • No grupo de 30 a 44 anos, o índice cai para 55%, com cerca de 2,5 horas por semana;   
  • E apenas 25% das pessoas entre 45 a 64 anos afirmam consumir música de IA,  com média de 1,1 hora.

Bom, esses dados revelam que o consumo de músicas 100%IA não está relacionado à apreciação da música em si.

A canção de IA generativa não é a personagem principal, e sim uma coadjuvante, em apoio a shorts , memes e outros formatos do YouTube e Tik Tok.

Arte sem alma

Se o consumo por música 100% IA não é alto, então ela significa ser uma música sem alma. E uma arte sem alma não gera conexão com o público.

É exatamente a identificação das pessoas com a letra de uma canção que a torna tão especial.

Você se enxerga naquela história , e ela acaba fazendo parte da sua vida. Então, quando uma canção é composta sem a vivência de quem a compôs, ela se torna vazia.

 E pode-se dizer que uma música gerada por um prompt perde o essencial: a conexão com a alma. É o que pensa o cantor Rodrigo Fercost: 

“Quando a arte vira produto em massa, ela perde a conexão com a alma humana.
A alma da arte não está na técnica, nem no arranjo perfeito, está no porquê ela foi criada.
A arte humana se torna mais valiosa justamente porque está ficando rara.
É como escrever uma carta à mão numa era de mensagens automáticas ou ouvir um vinil num mundo de playlists infinitas.”

E Murilo Peres assina embaixo:

“ Quando a arte vira apenas um produto gerado por IA, ela perde aquela conexão profunda que só existe quando alguém coloca suas vivências, dores e emoções ali.
A música deixa de carregar alma e passa a ser apenas conteúdo — rápido, impessoal e vazio. Isso, pra mim, é exatamente o oposto do que a arte deveria ser.”

 

O coração ainda pulsa

Embora a Inteligência Artificial produza música numa escala massiva, o fato dessa canção não ser a protagonista no consumo das pessoas nos conforta.

Se a música 100% IA serve meramente como um apoio a shorts e memes consumidos pelo público, então a qualidade da música feita por humanos ainda prevalece no gosto musical das pessoas.

E talvez haja uma luz no fim do túnel em relação ao futuro do mercado musical com a presença da IA generativa.

Um espaço de convívio entre as canções compostas por humanos e  as geradas por IA começa a ser desenhado.

 É claro que ainda existem as questões de direitos autorais e regulamentação da Inteligência Artificial. Mas são pontos para os próximos capítulos da nossa série.

E toda essa reflexão sobre a produção em massa de música 100% IA nos fez chegar a uma conclusão: o coração ainda pulsa. 

As pessoas se vêem nas vivências dos compositores transformadas em letra e melodia. É aí que reside a alma humana e a preferência por determinada canção.

Como dizia Arthur Schopenhauer:

“A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende.”

Então, vamos deixar a emoção falar mais alto!

E se você curtiu a nossa matéria, então bora acessar o primeiro capítulo da nossa série: “Os artistas 100% IA substituirão os humanos na música?