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Choro -100% brasileiro e agora Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil

“Meu coração, não sei por quê, bate feliz quando te vê…” Quem nunca ouviu “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barros, um clássico do chorinho? E para a felicidade dos fãs desse gênero musical 100% brasileiro, o choro agora é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

E reconhecido um dia depois da Quarta-Feira de Cinzas, dia 29 de fevereiro!

Mas o que esse reconhecimento, declarado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), representa para o choro?

Bom, que tal conhecer a história desse gênero popular tão importante para a cultura brasileira?

Choro –  uma forma de tocar

  Crédito:Ary Vasconcelos

O choro surge no século XIX como uma forma de tocar gêneros europeus como a polca, valsa, quadrilha,schottisch, entre outros, de uma maneira diferente. É o estilo brasileiro de interpretar as danças de salão europeias nos bailes da época. 

E tem na sua origem influências do lundu (gênero musical africano) e das danças da Europa da década de 1840 como a polca. 

         Polca

Essa forma de abrasileirar a execução das danças da época ganhou espaço nos salões e bailes .  

E assim surgiram os primeiros grupos de chorinho liderados pelo flautista Joaquim Callado , considerado o Pai do choro. É dele o primeiro registro do choro, em 1870, com a polca “Flor Amorosa”.

 

Choro torna-se um gênero musical

Essa maneira sincopada (influenciada pelo lundu e batuque) de tocar as músicas européias da moda foi fundamental para tornar o choro um gênero musical.

Crédito:@arrumaocoreto

Os chorões (como ficaram conhecidos os músicos do choro) tomaram para si as canções estrangeiras, dando o seu toque brasileiro ao interpretá-las.

 Com isso, as características que definiam essas músicas já não existiam mais, o que fez surgir um novo gênero musical: o Choro.

E um dos elementos musicais do chorinho é o modo de tocá-lo livre, solto, repleto de improvisações, sem se enquadrar em um ritmo específico.

Por falar em improvisações, esse é um elemento sempre presente nas rodas de choro. O que seriam delas sem ter a arte de improvisar? 

Mas quando se fala em improvisação no choro, se fala em variação melódica. É o que explica Tomaz Retz, coordenador do Centro de Pesquisa Jacob do Bandolim e professor da Escola Portátil de Música:

     Foto:Divulgação
“A melodia é tão marcante no choro que, ao invés de criar uma outra melodia, os músicos antigos costumavam fazer variações sobre ela.
O choro, na verdade, é como uma improvisação livre no sentido de ser um comentário sobre a melodia. Os músicos não estão criando uma nova melodia, mas sim comentários sobre a melodia principal.”

É o que concorda Hamilton de Holanda, um dos maiores bandolinistas brasileiros:

Reprodução:YouTube/Hamilton de Holanda Oficial

Pode-se dizer que o choro é uma grande colcha de retalhos dos principais ritmos que o influenciaram como o maxixe, a polca , a valsa e o samba. 

E resulta nos mais variados subgêneros como o samba-choro. e a polca-choro, e em canções com andamentos rápidos e lentos.

A chegada da família real e o surgimento do choro 

Um fato importante para o surgimento do choro foi a chegada da família real portuguesa ao Brasil em 1808. 

Com a corte de Portugal, vieram os instrumentos como piano, clarinete, flauta, bandolim e cavaquinho, além das danças de salão europeias como a valsa, a schottish e a polca. Todos essenciais para o nascimento do chorinho.

 

O Rio de Janeiro foi elevado à capital do Reino de Portugal e passou por uma reforma urbana e cultural.

 E essas condições históricas, juntamente com a abolição do tráfico de escravos, em 1850, proporcionaram o surgimento do choro assim como novos cargos para as camadas populares.

E a criação de profissões no setor público foi fundamental para o desenrolar do choro.

Sim, pois justamente os grupos de instrumentistas conhecidos como chorões eram, na sua maioria, modestos funcionários das repartições públicas , oriundos da classe média baixa da sociedade carioca.

 

Os músicos se reuniam para tocar “de ouvido” canções europeias com um toque brasileiro e influenciados pelo ritmo do lundu e do batuque. Nasciam ali os pagodes de fundo de quintal e as rodas de choro.

E assim o choro se espalhou, ganhou espaço nos salões e bailes e se tornou a primeira música popular urbana típica do Brasil. 

Dele surgiram grandes instrumentistas como:

  •  Joaquim Callado  – o Pai do Choro,
    Crédito:Museu da Imagem e do Som
  •  Chiquinha Gonzaga  – primeira compositora popular do Brasil,
  •  Ernesto Nazareth – compositor de sucessos como “Odeon” e “Brejeiro,
    Crédito:Instituto Moreira Salles
  •  Pixinguinha  – exímio músico e o responsável pela popularização do chorinho,
  • Jacob do Bandolim  – grande bandolinista do choro,
  • Altamiro Carrilho  – um dos maiores flautistas do Brasil.
       Crédito:Gilson Abreu
O chorinho não morreu

   Crédito:André Barreto

E você pensa que o choro se foi com os seus mestres? Não, o chorinho não morreu. Ele continua vivo nas rodas e clubes de choro, como o clube de Brasília, de Santos,e da Casa do Choro.

Crédito:Silvana Marques

E também está presente na formação de grupos como Choronas, Galo Preto, Trio Madeira Brasil, e de grandes artistas como Hamilton de Holanda.

Por que o termo choro?

E de onde vem o termo choro? Bom, há duas hipóteses sobre a origem do nome. A primeira seria, segundo os jornalistas Lúcio Rangel e José Ramos Tinhorão, a maneira chorosa, melancólica de se tocar as músicas europeias do século XIX.

Já a segunda diz que o termo choro deriva de “xolo”, um tipo de baile entre os escravos da fazenda.  E que, por confusão com a parônima portuguesa, passou a ser conhecida como “xoro” e finalmente, na cidade, a expressão começou a ser grafada com “ch”.

E se você quiser saber mais sobre a história do chorinho e dos seus grandes mestres, a Casa do Choro disponibiliza online, e de forma gratuita, um acervo com cerca de 28 mil partituras catalogadas e divididas em dois períodos: partituras dos compositores do século XIX e do século XX. 

Reprodução:Casa do Choro

Além das partituras, gravações, fotografias, instrumentos, livros e discos (78rpm, vinil e CDs) fazem parte do acervo do Instituto Casa do Choro. Para ter acesso a eles, é só clicar no link Casa do Choro.

Reconhecimento como Patrimônio Imaterial

E o que significa para os chorões o reconhecimento do choro como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil? É o que conta Hamilton de Holanda, renomado músico do chorinho, em entrevista ao site G1:

Crédito:Rafael Silva
“Eu recebo essa notícia como uma coisa justa, o reconhecimento da importância desse gênero para a cultura do Brasil.
É importante dizer que quando isso acontece, o Estado passa a ter um cuidado maior com o choro, ou seja, é uma maneira de continuar a divulgação desse gênero, principalmente pra manter a memória da cultura do Brasil.”

É justamente dessa continuidade de manter o choro vivo que Reco do Bandolim, presidente do Clube do Choro de Brasília, fala ao G1:

  Foto:Divulgação
“(…)Eu achei fundamental que nós tivéssemos aqui no Brasil a primeira escola (de choro). O Choro é de 1850. Como é que até hoje a gente não tem esse gênero que é fundamental, tá na base da música brasileira? É a nossa alma profunda!
Então, eu achei essa iniciativa de criar uma escola teria que ser uma coisa essencial pra todos nós. Nós precisamos saber de onde a gente veio.”

O pedido de reconhecimento do choro como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil teve início em 2012.

A iniciativa partiu do Clube do Choro de Brasília e ganhou apoio de outras instituições como o Clube de Choro de Santos e o Instituto Casa do Choro.

E finalmente esse reconhecimento chegou em 2024, sendo uma vitória para todos os apaixonados pelo chorinho.

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