IA Generativa na Música

Os artistas 100%IA substituirão os humanos na música?

Será que os artistas 100% IA vão substituir os humanos na música? Essa pergunta surge em meio à notícia sobre uma canção gerada totalmente por IA estar no Top 1 da Billboard. 

A música em questão – “Walk my Walk”, do artista virtual Breaking Rust, liderou a parada das músicas baixadas no gênero country no final de 2025.

Isso, somado aos 18 milhões 992 mil plays de “Walk my Walk” , e 2 milhões 200 mil ouvintes mensais de Breaking Rust no Spotify, faz acender o alerta de nos prepararmos para um novo nicho no cenário musical.

Música criada sem nenhum envolvimento humano era algo inimaginável há poucos anos. Sem falar no fechamento de contratos milionários com artistas não-reais como a Xania Monet!

Então, sim, precisamos falar, nos informar e opinar sobre artistas de IA generativa. E como esse é um tema bem relevante, o Blog Letra e Música ouviu, por meio de entrevistas e palestras, as opiniões dos grandes interessados neste assunto: os profissionais da indústria da música. 

Como esse tema não caberia numa única matéria devido à profundidade do assunto, o Blog Letra e Música resolveu transformá-la na série de reportagens – IA Generativa na Música. Serão 6 matérias publicadas quinzenalmente. 

Dentre os entrevistados para esta série estão: 

  • Carlos Mills (fundador da Mills Records), 
  • Murilo Peres (fundador da banda de pop rock indie Flores de Plástico), 
  • Rodrigo Fercost ( cantor e compositor mineiro de pop rock) e 
  • Alvin Gu (vocalista e compositor da banda independente Los 4 Caras).

E você também vai saber a opinião dos palestrantes da Trends Brasil Conference 2025 dos seguintes painéis:

 “IA: Regulação e Ações Parlamentares” 

  • Roberto Frejat (cantor, compositor, guitarrista e produtor)

“O Streaming da Música e os Artistas Gerados por IA”:

  • Pedro Kurtz (diretor de conteúdo e operações Deezer- Américas);
  • Carlos Taran (CEO da Music Tour Brasil);
  • Vanessa Bicalho (CEO da Labidad Music)
  • Bruno Martins (CEO da Shake Music)

A nossa primeira matéria – IA como ferramenta – já está no ar!

Então, segue com a gente!

IA como ferramenta

O uso da IA como ferramenta no processo de produção e composição musical já é uma realidade. E gera uma oportunidade de qualquer artista sem conhecimento técnico de produção, mixagem e masterização produzir o seu próprio álbum.

Ferramentas como LANDR Stems, Moises e LALAL.A possibilitam o isolamento de vocais e instrumentos. 

 

  Crédito:The Beatles

Quem não se lembra de “Now and Then”, última música do The Beatles? Com a tecnologia, foi possível extrair a voz de John Lennon da gravação de uma demo (voz e piano) do artista para Paul McCartney, feita em 1980, um pouco antes de Lennon morrer. 

Isso sem falar de assistentes de composição com IA que funcionam como inspiração para novos arranjos, melodias e acordes. 

Neste sentido, a tecnologia veio para somar: com ideias não pensadas ou esclarecimento de dúvidas no processo musical. É o que concorda Roberto Frejat, cantor e compositor, porém com algumas ressalvas, no evento da Trends Brasil Conference:

Reprodução:YouTube/Blog Letra e Música

Os dois lados da IA

Mas a IA como ferramenta tem o seu lado bom e o seu lado ruim. E isso depende exclusivamente do uso feito pelos humanos. 

Como tecnologia de apoio ao processo musical, a IA veio pra ajudar. Porém, quando usada 100% no processo criativo, burlando direitos autorais e morais, a IA torna-se uma “pedra no sapato” da indústria musical. É o que ressalta, Carlos Mills, fundador da Mills Records:

  Foto: Divulgação
“O uso de IA como uma ferramenta de apoio equivale a outras ferramentas que já existem, e são largamente utilizadas como: midi, sampler, e até mesmo o efeito reverb. Tudo isso já existe. E usar a IA como ferramenta nessa linha, eu não vejo problema nenhum.
O problema realmente são as IAs 100% generativas, e, principalmente, quando o cara tenta imitar um artista que já existe ou um mesmo timbre de voz. No sentido de nome ou cover de um artista que já existe, com intuito de enganar quem tá ouvindo, isso sim é problemático.
Agora, eu não vejo problema em usar IA generativa como ferramenta de apoio à produção. Isso não vai causar prejuízos em larga escala pra indústria.

Claro que do ponto de vista de contratação de músico, de estúdio, isso pode impactar, mas esse tipo de impacto já existiu ao longo do tempo com a digitalização do estúdio. Tudo isso impactou no mercado de trabalho, mas, por outro lado, surgem novos ofícios e novas profissões.”

E por falar em novos rumos tendo a IA como ferramenta, Roberto Frejat, cantor, compositor e guitarrista, levanta a questão do uso da Inteligência Artificial nas agências de publicidade e filmes.

No evento da Trends Brasil Conference, no painel IA: Regulação e Ações Parlamentares, Frejat conta sobre as consequências da IA na vida profissional dos músicos, e defende uma remuneração compensatória para a área:

Reprodução:YouTube/Blog Letra e Música

Já Pedro Kurtz – diretor de conteúdo e operações da Deezer -Americas, ressalta que o surgimento de novas tecnologias causa uma certa desconfiança. 

Durante o painel “O Streaming da Música e os Artistas gerados por IA”, na Trends Brasil Conference, Kurtz comenta esse receio com as novas tecnologias:

 Foto:Victor Roncca
“Toda vez que a tecnologia nova vem, qualquer mudança causa medo e ânsia. A IA já é usada em ferramentas como playlists, de acordo com os gostos.
A tecnologia tem parte boa e parte ruim. Assim como o streaming foi uma grande revolução, toda mudança causa medo.
Acho que retroceder na IA não é mais possível. A gente vê como a tecnologia permite como o conteúdo de produção foi reduzido e redemocratizado.
A tecnologia vem pra ajudar, e cabe a nós agora regula-la. Voltar atrás não existe mais.”

É o que concorda Carlos Taran -CEO da Música Tour Brasil, palestrante do mesmo painel da Trends Brasil:

Crédito:@carlostaran
“A IA é uma ferramenta boa que veio pra ficar. Eu ouvi artistas, como eles descobriram a IA , e como eles trabalham com ela: usando para gravar e compor. Eles a utilizam a favor da criatividade.”

Para Vanessa Bicalho- CEO da Labidad Music, sempre existem os dois lados da moeda:

Crédito: Vanessa Bicalho
“Existe o lado bom da IA como quando o produtor coloca uma demo para o artista escutar e entender a proposta dele. Isso favorece o nosso trabalho.
Por outro lado, tenho compositores que usam IA para substituir o processo criativo e seletivo deles. A IA não pode substituir a matéria humana.”

 

Visão dos artistas independentes

E do ponto de vista dos artistas independentes? A IA na música veio pra somar? 

Murillo Peres, fundador da Flores de Plástico, banda de pop rock indie, vê a inteligência Artificial como uma ilusão neste sentido:

 

Foto:@murillo_peres
Na prática, a IA banaliza o processo criativo e reduz o valor do trabalho de quem estudou, se dedicou e vive a música de verdade. 
Dar a qualquer pessoa a possibilidade de “fazer um álbum” apertando botões não é democratização — é nivelar a arte por baixo. Em vez de fortalecer o artista independente, isso cria ainda mais saturação e tira espaço de quem realmente domina o ofício.”

Já para Rodrigo Fercost, artista independente do pop rock, a tecnologia seria uma ferramenta que rompe barreiras no cenário da música independente:

 Foto:Divulgação
“A IA, usada como ferramenta, é talvez a maior revolução positiva já vista para artistas independentes desde o surgimento dos home studios. 
Ela não irá eliminar o papel do estúdio, mas igualar oportunidades e reduzir barreiras que antes eram praticamente intransponíveis para quem não tinha recursos. 

Aquilo que exigia toda uma equipe, agora pode ser feito por um único artista com um laptop.Isso não substitui estúdios de verdade, mas dá autonomia a quem antes não tinha nada. 
A IA chega como um aliado poderoso dos artistas independentes. Ela democratiza acesso, reduz custo, aumenta velocidade e abre caminhos que antes eram impossíveis. Porém a IA amplifica quem você já é e não cria quem você não é.”

Alvin Gu, vocalista e compositor da banda Los 4 Caras, levanta dois pontos interessantes da IA como ferramenta, com ressalvas no processo de composição e execução:

 Foto:Divulgação
“Para mixagem e masterização é interessante, apesar de considerar a produção e a mixagem um processo de composição. 
Vejo a mixagem como um amparo à interpretação do vocal, no caso de músicas cantadas. 
Costumo mixar fazendo experimentos entre a minha interpretação da letra e a linguagem dos instrumentos e vice-versa. Eles falam tanto quanto o vocal. Dão o clima.
 Acho complicado o uso da IA no processo de criação, composição, tanto de letra como instrumental, e na execução.”

 

A decisão em nossas mãos 

Chega-se à conclusão de que embora a IA seja uma grande revolução na vida profissional , o poder de decidir como usá-la está em nossas mãos .

 E se essa decisão cabe somente a nós, vamos usar a IA como uma ferramenta de evolução profissional e não de substituição.

 

Sim, ela vem para aguçar a nossa criatividade, e não para fazer o nosso trabalho. Quem é o cérebro é você!